TRAVESSIAS INTERATIVAS – VOLUME VI

2º SEMESTRE/2013

LITERATURA E HISTÓRIA: RELAÇÕES, IMPLICAÇÕES, LEITURAS

 

Tornaram-se frequentes os estudos que provocam relações entre literatura e outros saberes. Tais estudos têm demonstrado que a arte literária, ainda que fundamentada em trabalho autônomo da linguagem que se perfaz pela criatividade de quem compõe o texto, possui estreito vínculo com o conhecimento do mundo. Conforme no dizer de Antonio Candido, em “O direito à literatura”, a função da literatura percorre três faces: “(1) ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significante; (2) ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão de mundo dos indivíduos e dos grupos; (3) ela é uma forma de conhecimento [...]” (1998, p. 176).

Nessa perspectiva, este volume da Travessias reuniu textos que tendem a possíveis relações entre literatura e história. O primeiro artigo, intitulado “Fogo morto: a dramatização social e subjetiva da decadência”, de Bárbara Del Rio Araújo (UFMG), tematiza a decadência de certa estrutura sócio-econômica, para além de rótulos acerca da prosa de ficção da geração de 30 brasileira. O artigo seguinte – “Projetando reflexões sobre a (re)apresentação da realidade em Fahrenheit 9/11, de Michel Moore” – de Márcia Corrêa de Oliveira Mariano (UNESP/São José do Rio Preto),  intenta uma análise peculiar do documentário Fahrenheit 9/11, observando relações entre os fatos históricos e o ponto de vista de Michel Moore acerca dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. O terceiro artigo é o de Alexandre Francisco Solano (FNSA/UNIESP), “A escrita de uma vida: São Francisco de Assis entre a história e a ficção”; o articulista parte da biografia de São Francisco de Assis escrita por Jacques Le Goff, chegando a reflexões importantes sobre a narrativa biográfica.

Já o artigo de Morganna Sousa Rocha (UnB), “O outro pé da sereia: da história para a ficção”, parte do romance de Mia Couto para discutir a questão da ficcionalização da história. Patrícia Helena Baialuna de Andrade (UNESP/Araraquara), em “Sobre a autobiografia na literatura de exílio: um conto de Anna Seghers”, busca, conforme seu próprio dizer, “apontar para a presença do elemento autobiográfico no conto ‘O passeio das meninas mortas’, de Anna Seghers”. Eduardo Neves da Silva (UNESP/Araraquara), com seu texto “As relações nada naturais entre o amor e a nobreza no teatro de Antônio José da Silva, o Judeu”, analisa o amor e a nobreza em Esopaida ou vida de Esopo (1734) e Guerras do alecrim e manjerona (1737), ambas de Antônio José da Silva (O Judeu), relacionando tais obras a uma transformação sócio-histórica em Lisboa. O próximo artigo – “Tensões, intercessões e dissoluções: a desestabilização do conceito de nação na literatura brasileira contemporânea” –, de Laura Assis (PUC-Rio), traz leituras acerca do tema da nação (e suas implicações heterogêneas) na literatura brasileira contemporânea.

Por último, temos o artigo de Iniciação Científica “A descoberta do frio: uma escrita afro-brasileira”, de Auliam da Silva (UFPa), sob orientação do Prof. Dr. Sérgio Afonso Alves (UFPa); o texto discute a novela A descoberta do frio, de Oswaldo Camargo, refletindo sobre a literatura afro-brasileira.

A revista apresenta, ainda, uma resenha do livro Linguística da Internet (organizado por Tânia G. Shepherd e Tânia G. Saliés), publicado em 2013, elaborada por Flávia Danielle Sordi Silva Miranda (UNICAMP / AFARP-UNIESP).

E para abrir o volume, há uma entrevista com a professora, pesquisadora e ensaísta Nádia Batella Gotlib – expoente nos estudos de literatura e crítica – elaborada por Milca Tscherne (AFARP-UNIESP) e Alexandre de Melo Andrade (AFARP-UNIESP). Sendo destaque nos estudos de Clarice Lispector, conforme atestam os livros Clarice: uma vida que se conta (1995) e Clarice Fotobriografia (2008), Gotlib fala sobre suas pesquisas em torno da escritora. Registramos, aqui, nossos agradecimentos pela entrevista gentilmente cedida.

A todos os que se arriscarem por essas travessias, uma boa leitura!

 

Alexandre de Melo Andrade
Valéria da Fonseca Castrequini
(Editores)

 

 

Vol. 6, n. 2, 2013

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AUTOR CONVIDADO
ENTREVISTA COM NÁDIA BATTELLA GOTLIB
Milca TSCHERNE
Alexandre de Melo ANDRADE

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FOGO MORTO: A DRAMATIZAÇÃO SOCIAL E SUBJETIVA DA DECADÊNCIA
FOGO MORTO: THE SOCIAL AND SUBJECTIVE DRAMATIZATION´S DECADENCY
Bárbara Del Rio ARAÚJO

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RESUMO: Este trabalho visa ao estudo da obra Fogo Morto (1943), de José Lins do Rego, especificamente da análise dos elementos estéticos, que dramatizam na narrativa a transição das práticas mercantilistas para a economia capitalista no nordeste brasileiro. Considerada pela crítica literária como o romance que conclui magistralmente o “ciclo da cana-de-açúcar”, Fogo Morto representa o declínio da estrutura dos engenhos e, sobretudo, a degradação humana frente à modernização. Em face dos outros romances do ciclo, a obra referida é caracterizada pela sedimentação dos procedimentos artísticos, contudo não se pretende estender ao estudo comparado desses procedimentos, mas investigar de que modo Fogo Morto consegue contemplar dinamicamente a realidade decadente açucareira enquanto forma artística. Através da análise da instância narrativa e da configuração dos personagens, os quais são adotados tradicionalmente pela crítica como tipos, representantes de um grupo social, pretender-se-á evidenciar a sua complexidade de modo a dramatizar, na exposição do seu psicologismo, o declínio sócioeconômico da região. Nesse sentido, interessa demonstrar como o romance, através da combinação matizada das esferas social e subjetiva, supera o didatismo e a rigidez, que separa a ficção brasileira dos anos 30 em rótulos “social-regional” e “psicológico-intimista”, encenando de forma mais contundente o tema da decadência.

PALAVRAS-CHAVE: Romance regional, Romance intimista, Fogo Morto

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PROJETANDO REFLEXÕES SOBRE A RE(A)PRESENTAÇÃO DA REALIDADE EM FAHRENHEIT 9/11, DE MICHAEL MOORE
PROJECTING REFLECTIONS ON THE RE-PRESENTATION OF REALITY IN FAHRENHEIT 9/11, BY MICHAEL MOORE
Márcia Corrêa de Oliveira MARIANO

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RESUMO: O documentário Fahrenheit 9/11 (2004) foi escrito e dirigido por Michael Moore, tendo como tema os eventos de 11 de setembro. O documentário aborda as causas e consequências dos atentados, critica a postura do então presidente George W. Bush ao conduzir as questões de segurança e política externa americanas, mostra como as pessoas reagiram aos eventos e os problemas enfrentados pela nação.  Este artigo abordará como Fahrenheit 9/11 faz uma re(a)presentação do mundo histórico, representando-o, moldando seu registro sob uma perspectiva e um ponto de vista distintos, tornando-se um importante propulsor de acirrados debates sobre a História da política americana. Elencando questões referentes a conceitos como verdade, representação do real e resgate do passado histórico, o artigo tem como objetivo analisar o caráter ambíguo da interpretação dos fatos. Ao inserir e subverter certas informações, o artista aborda a realidade de forma a re(a)presentá-la e não a copiá-la, apresentando múltiplas perspectivas para a interpretação de um fato histórico.

PALAVRAS-CHAVE: Fahrenheit 9/11; documentário; ficção e realidade; representação; Michael Moore.
 

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a escrita de uma vida: são francisco de assis entre a história e a ficção
WRITING FOR A LIVING: SAINT FRANCIS OF ASSISI BETWEEN HISTORY AND FICTION

Alexandre Francisco SOLANO

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RESUMO: Pensar a relação entre história e ficção, por meio da biografia de São Francisco de Assis, escrita pelo estudioso Jacques Le Goff, é a intenção do presente artigo. Nesse sentido, a análise da obra São Francisco de Assis, do historiador francês, leva-nos a construir novas possibilidades para uma análise historiográfica, na qual a arte literária tem um papel central. Além disso, faz-se necessário discutir aspectos que tangem a narrativa biográfica e suas diferenças em relação à hagiografia, a escrita dos santos. Da heresia à santidade, encontramos não só o imaginário do homem religioso, como também daqueles que se debruçam para estudá-lo.

PALAVRAS-CHAVE: hagiografia, heresia, santidade.

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SOBRE A AUTOBIOGRAFIA NA LITERATURA DE EXÍLIO: UM CONTO DE ANNA SEGHERS
ABOUT THE AUTOBIOGRAPHY IN THE EXILLITERATUR: A SHORT STORY FROM ANNA SEGHERS
Patrícia Helena Baialuna de ANDRADE

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RESUMO: Durante o período em que o Nacional-Socialismo esteve no poder na Alemanha, grande parte dos escritores e intelectuais do país passaram a viver no exílio e produziram aquela que ficou conhecida como Literatura de Exílio. Em meio à grande diversidade de vertentes, estilos e temas que compõem o controverso movimento, foi prática recorrente dos autores desterrados relatar as experiências de perseguição, fuga e exílio em seus textos. Neste artigo procuramos apontar para a presença do elemento autobiográfico no conto “O passeio das meninas mortas”, de Anna Seghers, e refletir sobre os possíveis desdobramentos ideológicos da presença desses elementos no texto da autora.

PALAVRAS-CHAVE: Autobiografia, Exílio, Anna Seghers.

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O OUTRO PÉ DA SEREIA: DA HISTÓRIA PARA A FICÇÃO
O OUTRO PÉ DA SEREIS: FROM HISTORY TO FICTION
Morganna Sousa ROCHA

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RESUMO: Trata-se de discutir o processo de ficcionalização da história, a partir das narrativas de memória e arquivos esquecidos que contribuem para a composição e verossimilhança de uma narrativa ficcional.

PALAVRAS-CHAVE: Ficcionalização, história, Ricoeur.

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AS RELAÇÕES NADA NATURAIS ENTRE O AMOR E A NOBREZA NO TEATRO DE ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA, O JUDEU
THE UNNATURAL RELATIONS BETWEEN LOVE AND NOBILITY IN THEATER OF ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA, THE JEW
Eduardo Neves da SILVA

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RESUMO: Este trabalho propôs-se a analisar dois motivos sério-cômicos, a saber, o amor e a nobreza, presentes nas seguintes peças tragicômicas: Esopaida ou vida de Esopo (1734) e Guerras do alecrim e manjerona (1737), ambas de autoria do luso-brasileiro Antônio José da Silva (1705-1739), de alcunha O Judeu. O objetivo foi relacionar os motivos acima listados ao contexto sócio-cultural em que as referidas obras foram encenadas, isto é, o Portugal setecentista, então sob o reinado absolutista de D. João V. Em nossa investigação pudemos constatar que os protagonistas de tais peças, sejam os da chave séria, os discretos, sejam os da chave cômica, os graciosos, são movidos pelos impulsos de um amor artificializado graças aos excessos da linguagem e ao convencionalismo da galantaria palaciana. Acreditamos que seja possível atrair em determinados pontos das obras analisadas um tratamento pouco elevado acerca da temática amorosa e da questão dos valores de nobreza. Sendo assim, buscamos, por meio de subsídios teórico-críticos acerca do cômico, especialmente de autores como Vladímir Propp (1992) e Mikhail Bakhtin (1988), descobrir se e como se subentende na zombaria levada a cabo pelas personagens graciosas, e no desvio de caráter das personagens nobres, uma transformação de ordem sócio-histórica na Lisboa do Setecentos.

PALAVRAS-CHAVE: Antônio José da Silva, O Judeu; nobreza; comicidade; barroco

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TENSÕES, INTERCESSÕES E DISSOLUÇÕES: A DESESTABILIZAÇÃO DO CONCEITO DE NAÇÃO NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
TENSIONS, INTERECESSIONS AND DISSOLUTIONS: THE DESESTABILIZATIONS OF THE CONCEPT OF NATION IN CONTEMPORARY BRAZILIAN LITERATURE

Laura ASSIS

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RESUMO: O presente artigo tem como objetivo discutir a desestabilização do conceito de nação na literatura brasileira contemporânea, analisando de que maneira essa questão, que já foi central em nossa literatura, tem sido tratada na literatura do presente. Para tanto, serão analisadas algumas produções literárias brasileiras contemporâneas que, de alguma maneira, estão ligadas à nação, mas que se destacam pela heterogeneidade com que tratam o tema, trabalhando justamente com as fronteiras, tensões e intercessões inerentes à heterogeneidade da nação, características essas que serão observadas e analisadas em três obras distintas da literatura brasileira contemporânea.

PALAVRAS-CHAVE: Identidade nacional; Nação; Narração; Contemporaneidade.


 

INICIAÇÃO CIENTÍFICA

 

A DESCOBERTA DO FRIO: UMA ESCRITA AFRO-BRASILEIRA
THE DISCOVERY OF THE COLD: WRITING AN AFRO-BRAZILIAN
Auliam da SILVA

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RESUMO: Nas últimas décadas, mais precisamente desde os anos 80 do século XX, aumentou o número de estudiosos que discutem a existência de uma vertente “negra” na Literatura Brasileira. Pesquisadores como Zilá Bernd, Cuti [Luiz Silva], Luíza Lobo, Eduardo Duarte, Florentina Souza, Maria Nazareth Fonseca, entre outros, vêm discutindo conceitos como “Literatura Negro-Brasileira”, “Literatura Afrodescendente”, “Literatura Negra”, ou “Literatura Afro-Brasileira”. Para o estudioso Duarte (2008), há um conjunto de “constantes discursivas” – “temática”, “autoria”, “ponto de vista”, “linguagem” e “público leitor” – que nos possibilitam pensar nessa vertente literária, a qual ele denomina de “Literatura Afro-Brasileira”. Seguindo essa linha de pensamento, buscamos compreender a novela A descoberta do frio (2011), do escritor afrodescendente Oswaldo de Camargo, como uma obra pertencente à “Literatura Afro-Brasileira”, por meio das “constantes discursivas” propostas por Duarte (2008). Como arcabouço teórico, utilizamos as ideias de Duarte (2005; 2008), Bernd (1988) e Souza (2006).

PALAVRAS-CHAVE: Oswaldo de Camargo. Literatura Afro-Brasileira. Constantes Discursivas


RESENHAS

LINGUÍSTICA DA INTERNET
Flávia Danielle Sordi Silva MIRANDA

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